sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A vida é feita de escolhas

Eu estou muito feliz com o tratamento da terapia hormonal, inclusive já comecei. Mas, não tem como esquecer a discussão em torno desse assunto, principalmente em se tratando do meu caso. A terapia é vista por muitos médicos e muitas pessoas como algo perigoso. Tenho pesquisado muito esses dias, e na academia ainda não é um fato que faz mal, muito menos que só faz bem. Para cada caso é preciso fazer uma grande análise do que está em jogo. O que vale a pena?

Outro dia fiz a seguinte análise: Se meu corpo produzia esses dois hormônios, estrógeno e progesterona e deixou de produzi-los, por que ao repô-los eu teria câncer? A lógica seria que eu teria câncer de todo jeito, se meus ovários estivessem funcionando. Aí vem a questão, a quantidade no comprimido é a idêntica a que meu corpo produziria? Por que os testes e as pesquisas são feitas dando uma dosagem duas ou quatro vezes maior do que é dado na terapia? Por que não fazem testes, com as dosagens reais dos comprimidos vendidos e usados pelas mulheres na menopausa? São muitas perguntas... 

O percentual de mulheres que tiveram câncer de mama durante a reposição hormonal ficou em torno de 1%, 0,04 %, acho que não chegou a passar de 1,3%, outras pesquisas dizem que a incidência cai em 18% para as mulheres que deixaram de fazer a reposição. Outras dizem que a reposição feita apenas com estrogênio é menos propícia a desenvolver o câncer de mama. E aí com uma rápida conversa com minha cunhada, que é médica, ela me fala da ligação do câncer de mama com o estrogênio, e não com a progesterona. Por outro lado, também temos as pesquisas realizadas com mulheres que sofrem da menopausa precoce. Mulheres que entram na menopausa antes dos 46 anos correm um risco dobrado de desenvolverem doenças cardiovasculares. Temos que 6% das mulheres com menopausa precoce apresentaram problema cardíaco depois dos 55 anos contra 2,6% com menopausa posterior a essa idade que apresentaram os mesmos problemas. 

"A mulher com um risco elevado de desenvolver cancro da mama não deverá tomar estrogénios. No entanto, para as mulheres propensas à osteoporose e a doenças do coração e para aquelas com pouco risco de desenvolver cancro da mama, o benefício obtido graças à terapia com estrogénios compensa amplamente os riscos possíveis."Biblioteca Médica OnLine 

E quando você tem risco elevado de desenvolver ca de mama e doenças do coração? #comofas?

Eu nem estou considerando aí a questão da qualidade de vida. Que uma mulher aos 30 anos, não consiga ter relação sexual, além dos calores, insônias, depressão e etc, problemas que afetam a saúde psicológica, e não apenas a saúde do corpo. Alguns médicos que condenam a terapia hormonal dizem que existem outras maneiras de combater os problemas cardiovasculares e a osteoporose. Aí a gente volta pro meu caso: 30 anos, histórico de câncer de mama da mãe, histórico de problemas cardíacos da mãe, avó, tia e tios, toda família materna. E não é assim "qualquer problema", minha tia mais velha já faleceu, minha mãe começou com arritmia e após o ca de mama ganhou uma insuficiência cardíaca, e hoje é transplantada. Minha vó, já perdi a conta de todas as cirurgias que já fez, aquelas pontas safenas, marcapassos etc. Hoje, tem um aneurisma abdominal. 

Vou colocar tudo na balança. As porcentagens do ca de mama vindo da terapia hormonal estão em cerca de 1%. Aí eu penso, mas é pouco, que azar eim? Sabe qual a chance de eu ter tido um câncer colorretal na minha idade? ... Nem vou te contar. Pergunta a qualquer médico proctologista ou a minha oncologista que nunca tratou de um CA colorretal em alguém da minha idade. Sim, definitivamente eu fui "premiada". E aí quando eu falo, as pessoas me chamam de pessimista. Não! Eu estou tentando sobreviver da melhor maneira possível, pois as coisas não são fáceis mesmo... Não é o trabalho, o estudo, é a vida. É estar vivo ou não. Ter doenças ou não. Correr riscos ou não.

Eu escolho arriscar a terapia. Não sei o que vai acontecer nos próximos 5 anos. Por que todo médico só recomenda a terapia por 2 anos. Mas eu com 30, começar e parar com 32. Fiz o que? Com 32 estou teoricamente na "flor da idade". Estou consciente de que eu escolho correr o risco de ter um novo câncer de mama, em detrimento de ter uma doença cardíaca ou óssea. Quando eu coloco na balança, o câncer de mama pesa menos, o problema é que ele pode ser fatal. E, eu sempre penso que... Desde que minha mãe teve, um ca de mama para mim não seria novidade. O que devo fazer? Cobrar dos médicos uma vigilância maior. Fazer o exame genético? Retirar as mamas?

Eu preciso de terapia hormonal por pelo menos uns 15 anos... Mas, se eu não a fizer... Vou ficar doente de tristeza e depressão, por que todas essas doenças vão bater na minha porta, não vai ser só mais uma bomba relógio de câncer, vai ser mais uma de coração, mais uma de ossos... etc. Ou eu deixo de trabalhar e gasto minhas 24 horas diárias só praticando exercícios e comprando comidas orgânicas, tudo isso custa bem caro. Como manter uma saúde impecável? E o pior, depois de todas essas divagações eu posso amanhã morrer de alguma coisa nada a ver com tudo isso. A vida é muito bizarra. Talvez eu não consiga ver algo que vocês vêem. Mas já pararam pra pensar que eu consigo ver algumas coisas que vocês não vêem? Como por exemplo o histórico de doenças cardíacas da minha família? Eu vejo isso desde pequena. Eu lembro quando eu chorava copiosamente em uma das primeiras cirurgias da minha avó, eu devia ter uns 8 anos...

Eu vejo a terapia hormonal como um caminho pra ter uma vida normal, onde eu deixe de pensar nessas coisas. Ter tempo livre para poder fazer as coisas que todo mundo faz como estudar, trabalhar, me divertir. Ter perspectivas. Com uma mamografia a cada 6 meses, e o CEA a cada 3, ou 6 meses. Casar, ter filhos, viver o mais próximo do normal possível. E se mais um câncer vier... Fazer aquela pausa novamente. Não me assustar. Foi a minha loteria. E embora os acontecimentos da minha vida ficam sempre fora das estatísticas, elas mostram que morrem no Brasil 360 mil pessoas por ano de doenças cardíacas, contra 11 mil que morrem de câncer de mama. 

Para quem quiser ler:


2 comentários:

  1. Se eu pudesse lhe dar um conselho era: já que você já fez a escolha da terapia hormonal e ela esta lhe fazendo bem, comece a refletir sobre uma possível retirada das mamas! E procure uma boa terapia para lhe ajudar a se auto conhecer, para que você possa inclusive tomar melhor suas decisões.

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    1. É, estou pensando nisso. Daqui a 3 meses tenho consulta com oncologista e vou tocar neste tema. Obrigada pelo conselho.

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