quarta-feira, 3 de junho de 2015

Câncer em jovens adultos -- [vomitando algumas palavras]

Sobreviver a um câncer dá uma falsa de ideia de força e superação. A gente passa a achar que é muito forte e que qualquer problema é fichinha. Você se acostuma a ser chamado de "herói". Não é. Principalmente quando se é um jovem adulto. Um jovem adulto está no limiar, ele não é muito novo e nem muito velho. Não é como uma criança, uma "máquina tinindo", que muitas vezes nem desenvolveu seu estoque reprodutor ainda... Ou um idoso, que já teve oportunidade de viver e experienciar tudo no tempo certo. Não quero com isso dizer que a vida de qualquer um deles valha mais ou que é mais pesaroso em certa faixa etária ou não. Cada caso é um caso único. O fato é que, ter força emocional pra ser tratado durante a doença como "novo" e após a doença como "velho" é bastante frustrante, doloroso, e muito difícil. Só isso, o mundo não acabou.

Por mais que eu leia, use joguinhos de celular enquanto perco horas do meu dia, duas a três vezes por semana numa clínica para fazer exames de menopausa, ou de perda óssea, ou de prevenção cardíaca, ou vários outros... É inevitável que ao menos eu pense: "Eu não deveria estar aqui.". As outras pessoas da minha idade estão trabalhando, estudando, se divertindo, da forma que escolheram. Dizem que também posso escolher. Mentira. Minha escolha é uma só: Eu tenho que aceitar. Aceitar que meu corpo lutará contra a sua própria existência, biologicamente falando, ele é uma falha. Deu um erro no sistema. Puft. E enquanto ele for rapidamente (não cronologicamente) se deteriorando, a medicina vai me oferecendo artifícios para tentar prolongá-lo da forma mais próxima do normal. Todos envelhecem, que drama. Não aos 32. Uns aos 15, sim. Sempre poderia ser pior, claro. Mas não tente, não usarei a situação de alguém para me sentir melhor com a minha. Na minha opinião é meio doentio.

Tenho muitas dificuldades para aceitar que preciso gastar os meus dias tentando preservar o meu corpo pelo dobro, ou triplo de tempo. Tempo que eu deveria gastar apenas daqui a 20 anos. Tudo fica mais difícil, mais lento. What's the point? Durante a quimioterapia e a radio era mais fácil perceber que é só um: felicidade. E mesmo naqueles dias ela vinha, de 15 em 15 dias. Era a alternância entre o sentimento de morte e todas as outras coisas ruins e ter 29 anos novamente.

Deixei de achar "bonitinho" a piedade dos médicos em querer me poupar, porque só tenho 30 anos. Que nunca passou isso ou aquilo para alguém mais novo que 36. Eu tenho que esperar os 36, mesmo que eu tenha 32 e precise como se tivesse 40. De novo. Isso não consegue pairar calmamente na minha cabeça.

Tenho plena consciência da quantidade de pessoas que sofrem muito mais que eu com problemas da mesma origem, embora sejam poucos, inclusive eu me sinto feliz quando consigo encontrá-los. Não é felicidade pela desgraça alheia. É um sentimento único, por que eu sei que essa pessoa não vai me dizer: "você é jovem, é exagero seu, eu aqui ó, cheio de dor nas costas... vivi muito". Ela não me vê só por fora. Ela entende o que tem por dentro, por que está passando por isso também. 

Eu tento procurar o lado racional, um objetivo pra evitar  o "desmoronamento" antes do tempo. Agradecer por "estar viva", agradecer por que "poderia ser pior" não faz meu tipo. Infelizmente, eu quero mais. Talvez sofra por isso, a vida inteira. Sofro por que não aceito o que meu corpo vem fazendo comigo. E estamos sozinhos.  Me sinto, na maioria das vezes, deslocada. Esses dias eu estava pensando que talvez fizesse bem procurar algum grupo de idosas e começar a interagir com elas sobre menopausa, sexo na terceira idade, retina, exames de glaucoma, densitometrias, insuficiência de vitamina D, alimentação saudável, etc. com certeza teremos muitos assuntos para conversar...



Por fim, o tempo me leva a concluir que talvez a felicidade "reservada" ou "permitida" para mim não seja o usual das pessoas da minha idade: um emprego, um filho, uma conquista profissional ou pessoal. Talvez, minha conquista seja no máximo o que eu sinto quando como uma paleta mexicana recheada de doce de leite. Mas, calma, nem por isso ela é menor, ou insignificante, preciso apenas me acostumar a ela, porque não posso deixar passar a possibilidade de que até o fim dos meus dias ela seja a única e eu a tenha deixado passar. 

Por favor, aceitem a metáfora.

15 comentários:

  1. Acompanhei todas suas escritas, desde a rinoplastia ate todos os acontecimentos que a vida nos prega passar. Vc é uma guerreira, nao a conheço pessoalmente, mas suas palavras mostram sua indole e caráter, força e determinação. Sua história de vida é muito importante e serve de exemplo pra pessoas que reclamam da vida por bobagens. Vc disse tudo, a vida nao se resume em ter um emprego bom, dinheiro, um amor, e sim se resume a ter a vida a cada dia que passar. Acordar e respirar. Boa noite. Ate mais.
    Ass. Orlane Pimentel.

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    1. Oi Orlane! =)
      Obrigada pelas palavras! Pela visita!
      Um abraço bem grande!

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    2. Obrigada por responder.
      Uma boa noite. Continue escrevendo, adoro ler e acompanhar suas batalhas diarias. Bjao!
      Att. Orlane Pimentel

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  3. Olá Milena, encontrei seu blog há 1 hora e estou tendo um caso de amor com ele... Faço 31 anos essa semana, sem namorado no momento e após um diagnostico dos meus ovários estarem encolhendo (motivo? Não sabemos ainda, nunca fiz quimio...), estou considerando o congelamento de óvulo e acabei aqui. Estou adorando escrita, já pensou em escrever um livro? Abraço, Ana.

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    1. Oi! Penso sim em escrever um livro... Na verdade, republicar o blog em formato de livro. Mas, não sei ainda em que momento... Mas penso isso sim! Acho que pode ajudar ainda mais pessoas! Fiquei feliz por saber que você gostou tanto! um Abraço!

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  4. sua escrita* (aliás, você tem uma veia para cronista muito forte. Essa sua blogagem daria uma crônica chamada "Felicidade Permitida". Ana.

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    1. Obrigada por mais elogios! E curti a ideia! =)
      Estou aqui torcendo para que você passe pelo seu problema da melhor forma possível. Um beijo grande!

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  5. Olá Milena!
    Encontrei seu blog hj. Acho que procurava sobre septoplastia e acabei achando vc nas imagens do google. =)
    Mas o que me fez escrever para vc foi sua história com o câncer. Li sua entrevista no oncoguia, já seguia a página, mas digamos sou nova nessa área. Descobri um ca de bexiga ano passado com 28 anos. E minha batalha foi em busca de um profissional que me falasse a verdade e me apresentasse esse "novo mundo" ( o que é isso? o que fazer? essas coisas), não é a toa que peregrinei em nove urologistas para acertar um. E parece que não acertei muito pq agora, voltei a peregrinação por recomendação do meu onco para buscar um outro profissional que seja "competente" e comprometido em seguir o acompanhamento. =/
    Sou de recife também. e gostaria de mais informações sobre esses grupos e trocar uma ideia. Sinto-me perdida, meio que deslocada, minha família segue a vida e eu também tenho que seguir... mas nessa rotina de médicos e exames estou na maioria só e sinto-me deslocada e cansada...
    Foi muito bom ter encontrado seu blog e "ouvi-la".
    Felicidades...
    Suelen

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    1. Oi Suelen! Caramba, não sei se você vai ler esse comentário. Conhece a Clinica Continence? Fica em Boa Viagem e aceita o plano da Unimed. Lá é totalmente especializado em problemas do assoalho pélvico. Até fisioterapia uroginecológica tem lá. Eu já falei sobre elas aqui no blog. Espero que você tenha visto. Vejo muitas mulheres indo lá com problemas em relação a bexiga... Gostaria de saber quem é teu oncologista, onde tás se tratando? Tudo de bom pra você! Me manda um e-mail para conversarmos é milenmont@gmail.com Beijos.

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  6. Olá, sou Daniel tenho 27 anos e tenho cancer de intestino com metástases no figado, descobri a dois meses, estou fazendo quimioterapia com folfox. Sua história me dá forças para seguir obrigado pela força que teve e por ter escrito sua hisstória. Saiba que alguém com ainda pouco experiência já te entende e te admira.

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    1. Oi Daniel! Tudo bem? Espero que sim, na medida do possível. Posso dizer, com propriedade, que tá ruim, tá difícil mas vai passar! Estamos juntos nesta luta! Aparece por aqui e me diz como você está. Se quiser conversar me manda e-mail milenmont@gmail.com Abração!!! Saúde!

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  7. Obrigado por responder. Estou vivo. Lutando muito para isso mas, vivo. Farei em breve uma cirugia para tirar os resquícios do que há no fígado. Ter essa doença na nossa idade é muito difícil, vejo todos na clinica falando da vida que tiveram e fico pensado na que eu estava começando a construir. Mas, por outro lado penso o valor que passei a dar a cada dia vivido, o preço que pagamos para viver faz com que nossas vidas ganhem imenso valor. Grande abraço.

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    1. Pensamos igual Daniel... É isso mesmo. Gostaria de saber de você. Como estás? Um beijo no coração.

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  8. bom dia Milena!Apesar de não lhe conhecer, fiquei feliz em saber de seu caso de sucesso - cancerfre.Estou com uma pessoa na familia passando pelo mesmo problema, a qual já foi operada e agora esta com a QuimioTerapia.Poderia falar um pouco mais sobre o tipo de tumor que você teve, qual o estagio doença, como esta sua dieta(provavelmente longe de frituras e gorduras animais) e como foi seu retorno(tempo- 1,2,3...meses) no pós-operatório ás sua atividades normais, tipo academia,caminhada,corrida?..Agradeço pelo seu relato,pois esta ajudando muitos a superar essa doença, a qual esta atualmente sendo cúravel por nossos exelentes profissionais da saúde...Feliz 2016 para vocẽ e seus familiares.

    Ass:Diovane

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